Sócrates, o verdadeiro

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As incoerências do (des)acordo ortográfico

a 5 de Março de 2009

Antes de mais devo dizer que sou contra este Acordo Ortográfico. Não seria intelectualmente honesto da minha parte não anunciar o mesmo e correr o risco de transmitir a ideia que possa estar a ser imparcial. A verdade é que após verificar muitas das alterações, não posso concordar com o conteúdo do mesmo.

Uma pessoa pode gostar ou desgostar de uma casa. Um militar pode achar a mesma boa ou má para um ataque. Um familiar pode achar a mesma boa ou má para habitar.

No entanto este acordo não é uma casa. É, se tanto, uma edificação em construção, onde o empreiteiro compra material da pior qualidade, as futuras divisões não estão à esquadria, não tem telhado nem ligação à rede eléctrica mas já tem electrodomésticos lá dentro. Existe ainda também uma mesinha de cabeceira, onde repousa um livro, ao lado de uma cama inexistente.

Apesar de todos os problemas que possamos ver nesta descrição, a edificação está  a ser “vendida” para uso imediato como uma casa funcional e sólida.

O Acordo

Se me fosse apresentado um documento que instituía uma completa unificação da Língua Portuguesa, continuava a não concordar, mas ao menos seria algo coerente.

Diz-se que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a afirmação da Língua Portuguesa no mundo e também para a sua simplificação. Um dos argumentos é que com ele será mais fácil a adopção do Português como Língua de trabalho em instituições internacionais, pois terá documento único com grafia unificada. É sem dúvida uma visão interessante… E falaciosa.

Vocabulário

Ao redigir um texto na “grafia unificada”, será que irão usar “pingolim” ou “matraquilho”? ”Banheiro” ou ”casa-de-banho”? “Paquera” ou “namorico”? E o que irá acontecer gramaticalmente? O texto irá estar repleto de gerúndios como habitual no Brasil ou com a construção frásica mais típica em Portugal (e nas restantes ex-colónias de Língua oficial Portuguesa)?

Outro problema que se coloca é a nível de vocabulário académico/técnico. Passará a utilizar-se o do Brasil ou o Português? E porquê um em detrimento do outro, ou porquê uma palavra em detrimento da outra? Os profissionais actuais serão todos reciclados para aprenderem o novo vocabulário técnico?

Ortografia

Mas as incoerências vão mais além. Veja-se o caso das duplas ortografias. Há palavras que por cá  irão perder as ditas consoantes mudas. Essas mesmas palavras irão manter as mesmas consoantes mudas no Brasil… por lá não serem mudas!

No entanto a senda das consoantes mudas vai mais além, ao ponto de haver um completo atropelo da norma Portuguesa generalizada, como o caso do ‘p’ em ‘Egipto’… Que irá cair. Surpreendentemente parece que “egípcio” manterá o ‘p’, sob o argumento de ser pronunciado tanto cá como lá.

Haverá ainda o caso caricato da palavra “tecto” que passará a ser “teto”. A palavra “acto” que passará a “ato”, o que levará portanto a um aumento das homógrafas, que não sei ao certo se contribuirá para uma rápida e fácil compreensão de um texto escrito.

Ora se a coerência para estas mudanças é a fonética, então para quando um despacho normativo dos sotaques e formas de falar a Língua Portuguesa? Como irão as gerações seguintes compreender que se escreve “Egito” e depois “egípcio”? Isto já para não falar do facto que muita gente diz o ‘p’ em “Egipto” (eu incluído, e não julgo estar a errar).

Hífenes

Uma das minhas incoerências predilectas é sem dúvida o uso do hífen. Não tocando sequer na confusão que lançou mesmo nos dicionários de referência Brasileiros (similar deverá acontecer por cá). Se “fim-de-semana” perde os mesmos, já “cor-de-rosa” ou “pé-de-meia” irão manter por o seu uso ser considerado generalizado. Ora ter este argumento como justificação destas excepções é estar a premiar a ignorância.

Joseph Goebbels disse que uma mentira dita vezes suficientes tornava-se numa verdade. Parece que um erro cometido vezes suficientes deixa de o ser. Só espero que não adoptem a mesma filosofia na ciência ou medicina.

Os Perigos

Não os identificou? Ainda é do tempo em que os programas informáticos vinham com termos estranhos como “Gerenciador de Programas”? Se não é poderá vir a ser. Não será de admirar que por razões puramente económicas, e tendo em conta a ideia generalizada que a ortografia da Língua Portuguesa irá seguir a norma brasileira, se possa vir a ignorar o vocabulário português (PT-PT) no mundo do software (um retrocesso portanto).

Poderão também ser perigosas para as editoras nacionais estas mudanças. Para uma editora brasileira, é muito possível que mais centena de milhar, menos centena de milhar de exemplares numa tiragem não faça grande diferença. Para uma editora portuguesa o mesmo poderá não ser tão linear. Com estas mudanças poderemos estar a assistir à relativização do tamanho das editoras nacionais, que passarão a ser “mercearias” a concorrer com “hipermercados”.

Claro que podemos sempre advogar que devido às diferenças de vocabulário que ainda se mantêm as editoras nacionais irão sempre safar-se (pelo menos no nosso país, já nos PALOP…) ou que o mercado brasileiro também se poderá abrir para as editoras nacionais (apesar de ser diferente, como disse, escalar a produção nacional para um mercado do tamanho do brasileiro, já o contrário será bem mais simples, por questões da grandeza das infraestruturas actuais das editoras).

Conclusão

Há quem veja uma ameaça à Língua Portuguesa a existência das várias grafias e vocabulários. Do Brasileiro ao Português, passando pelo Angolano, Moçambicano, Cabo-Verdiano, Guineense, São-Tomense ou Timorense. Pessoalmente vejo aí uma riqueza cultural ímpar.

Uma unificação da Língua será sempre artificial e terá que ser necessária ciclicamente para contrariar o que é natural em países com culturas similares, mas mesmo assim diferentes. As questões que nos devemos colocar são se realmente este acordo faz sentido, se é coerente e se vai na realidade melhorar o nosso desempenho económico.

A verdade é que sem trabalho, método e honestidade não se melhora nada, independentemente da Língua. A coerência julgo não ser aquela que se deseja (se tanto vai ainda complicar as regras da Língua) e o sentido só existe para quem vê soluções milagrosas para outros problemas de fundo do nosso país.

É esta a minha opinião, falível como qualquer outra.

Ligações recomendadas:

Se quiser assinar o abaixo-assinado contra o acordo, pode fazê-lo aqui:


etiquetas: acordo ortográfico

7 comentários

  • 1 Jaleco // Mar 12, 2009 at 15:14

    Tanto paleio que não esconde um profundo preconceito. É inacreditável!

  • 2 Jaleco // Mar 12, 2009 at 15:38

    Só para o meu comentário não ficar tão seco deixo mais algumas considerações.

    A substituição do infinitivo pelo gerúndio não está prevista pelo acordo. Tal como a substituição de vocabulário. Simplesmente porque isso nada tem a ver com ortografia. Uma mudança ortográfica nunca ameaça a língua! São níveis diferentes. Mas se o perigo parece consistir na brasileirização da língua, eu pergunto: e no Brasil, não se fala português? Como poderia a variante (ortográfica) dominante da língua portuguesa ameaçar essa mesma língua? A resposta está toda na formulação preconceituosa do problema por parte dos defensistas.

    Ou seja, este post está muito mal informado e, na minha opinião, apenas revela preconceito.

    O acordo é estritamente ortográfico, não é unificador mas aponta num sentido de convergência respeitando diferenças sensíveis.

    Se o maior peso é no sentido da aproximação à norma vigente no Brasil, isso pode justificar-se de duas maneiras, ou até 3. O Brasil já tinha adoptado no passado acordos que Portugal não seguiu, e portanto viu-se anteriormente com uma norma mais “simples”, i. e. mais fonética e menos etimológica. Assim, abrasileirar seria respeitar acordos antigos e também aceitar o espírito desses acordos. E por fim, se a língua portuguesa tem alguma expressão é devido ao Brasil. Pouco importa pôr no clube lusitano uma catrefada de países onde o português mal se fala. A lista de links sobre o perigo e essa manobra de parecer grande mostra bem o ranço nacionalista e até imperial da atitude.

    Aliás, a ortografia brasileira nada tem de especificamente brasileiro. Foi uma convenção recente e racionalmente escolhida. O Pessoa ou o Eça usavam ortografias bem diferentes da nossa, tal como o Machado de Assis ou o Carlos Drummond de Andrade. O português continuaria de boa saúde se fosse grafado com cirílico ou com caracteres chineses. Veja-se o caso da mesma língua supostamente dividida em duas pela ortografia, o servo-croata. Não são factores linguísticos os que estão em jogo. E nesta causa, um escritor profissional tem a mesma autoridade opinativa que uma prostituta.

  • 3 Socrates // Mar 12, 2009 at 22:02

    Uma das razões para o acordo ortográfico é ganhar força nas instituições mundiais e ser tida como língua de trabalho nas mais importantes e serem emitidos comunicados na mesma. Como bem verificou é um pouco difícil visto que para tal a unificação teria que ir mais além que a ortografia. Obrigado por confirmar o meu argumento. :)

    Dizer que a ortografia Brasileira foi recentemente escolhida é desconhecer os acordos ortográficos desde a década de 10 do século XX. Para sua informação foram exactamente os Brasileiros que não adoptaram algumas das modificações de acordos anteriores, a meio do século XX, pois caso tivessem adoptado o acordado, nem sequer haveria modificações nas palavras com tremas, entre outras. Por outro lado a necessidade em adoptarmos novo acordo em 1990 era tanta que este teve a aplicação que se viu e que comprova que não há por enquanto necessidade de qualquer acordo.

    Aproximar a ortografia da fonética e afastar do seu étimo é estar a desarmar ainda mais as pessoas (a partir do momento em que há mudança). É substituir a compreensão e perspicácia em desvendar o significado de palavras novas pelo marranço das suas definições. Para além disso o exemplo da mudança Egipto -> Egito e manutenção de Egípcio é mais que reveladora da incoerência, assim como outros tantos casos em que nem todos dizem as palavras da mesma forma, havendo mesmo muita gente a acentuar consoantes que outros dizem mudas (e falo de pessoas que falam Português correcto).

    Quanto ao meu “ranço nacionalista e imperial”, parece-me uma acusação mais que despropositada, diria mesmo uma falácia ad hominem. Por outro lado o pseudo-argumento contrário pode ser usado contra si. No entanto não gosto de entrar em falácias, apesar de serem atractivas à primeira vista, a nível da argumentação apenas comprovam incapacidade argumentativa.

    Porque hei-de eu e milhares de pessoas mudarem a forma de escrever por decreto? Tem havido problemas até agora? Em que é que vou ganhar em ter uma grafia aproximada (sim, porque há muitas palavras que vão continuar a escrever-se de forma diferente devido ao uso generalizado quer cá quer lá) dos Brasileiros? Eu que vejo riqueza cultural nessas diferenças (mas parece que afinal isto é ser nacionalista) e gosto que elas existam, não por demonstrar qualquer superioridade mas sim porque são tão belas quanto as diferenças entre o Português e o Galego?

    Serei eu o imperial em apostar na *diversidade* (que é uma das formas na Natureza de sobrevivência) ou serão aqueles que querem *unificar* a ortografia?

  • 4 Jaleco // Mar 15, 2009 at 23:24

    Ad hominem, uma porra! Foi bem argumentado. Mas os preconceituosos são não só cegos ao preconceito como quase fazem gala dele, e se lhes é apontado, tergiversam.

    Vejamos, o que seria português correcto? Por que raio as pessoas deveriam deixar de usar o idioma que aprenderam espontaneamente para adoptar uma norma que lhes é estranha? Bem, essa norma tem um peso social para lá da sua realidade de mera convenção extra-linguística. Serve também, e é este aspecto que quero comentar, para hierarquizar. Não existe correcção linguística mas apenas social. Existem os parolos, os populares, os do norte ou da serra e os que falam “bem”, isto é, aqueles que pronunciam as palavras da forma que os gramáticos do passado condenavam como incorrecta. Diziam eles que a sul se notava uma tendência para pronunciar incorrectamente palavras como chapéu, pronunciando o ch como x. Pois é. Essa ortografia conserva a memória de outros estados da língua que ainda estão vivos em Trás-os-Montes,mas que são considerados incorrectos e motivos de irrisão por aqueles que não são “preguiçosos” e têm todo um capital cultural para exibir e contrastar com quem não o tem.

  • 5 Socrates // Mar 15, 2009 at 23:55

    Qualquer dia ainda nos obrigam a escrever coâlho e vermâlho… depois os outros é que são preguiçosos.

  • 6 Desacordos ortograficos comissionados! « Sentido Contrario // Ago 25, 2009 at 12:01

    [...] em palavras como “conseqüentemente“. Também recomendo a leitura deste comentário . Todas as citações de dicionário foram tiradas [...]

  • 7 Desacordos ortograficos comissionados! « Sentido Contrario // Ago 26, 2009 at 12:31

    [...] recusam-se a cumprir e vão continuar a publicar livros sem cumprir o acordo . Fui apontado para um post muito bem escrito, mas completamente errado ao qual vou atirar uns calhaus com um post mal escrito [...]

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