Há quem vote em branco por estar desinformado, há quem vote em branco por querer dormir descansado de noite, há muitas razões para se votar em branco. A minha é simples: não gosto que me impinjam pessoas.
Ao votarmos num partido para as eleições europeias, autárquicas e legislativas não estamos a votar nos cabeças de lista, estamos a dar um voto para eleger o máximo de pessoas daquela lista. A lista é apresentada pelo partido, ordenada pelo partido e impingida aos eleitores. O que acontece se eu apenas reconhecer ao cabeça de lista capacidade para me representar? E se for apenas à terceira pessoa na lista? E se eu reconhecer capacidade a uma pessoa de uma lista e a outra pessoa de outra lista?
Poderão dizer que eles todos estarão a seguir a linha do partido e que portanto não fará mal votarmos na lista. Mas se assim é, porque elegemos várias pessoas? Porque não poupar nos seus ordenados e apenas eleger uma pessoa, fazer o seu voto valer X mandatos e possivelmente substituÃ-la por alguém mais capaz sempre que o assunto em discussão sair da sua especialidade ou possivelmente permitir uma pequena comissão quando o assunto exigir conhecimentos de várias áreas?
Existe uma dicotomia na forma como encaramos as eleições para uma assembleia (europeia, municipal ou nacional). Por um lado focamo-nos em pessoas, a quem damos poder de nos representar (apesar de raramente elas se reunirem com os cÃrculos que as elegeram). Por outro lado na realidade votamos em partidos e estamos a passar carta branca a um partido representado por diversas pessoas, que poderá ou não impor disciplina de voto a essas pessoas, com o qual podemos não concordar com o seu programa na totalidade (assim como algumas das pessoas eleitas).
Durante quatro anos pouco poder a população tem para orientar o processo de tomada de decisões e fica refém da escolha que fez, muitas vezes baseada em certos pressupostos apresentados pelo partido (programa) que podem nem sequer ser cumpridos e ser completamente adulterados. É verdade que nas próximas eleições o partido e os seus representantes podem ser penalizados, no entanto 4 anos passaram. Também é verdade que há deputados que quebram com a disciplina de voto, mas quantos o fazem após reunirem com quem os elegeu?
Eu queria uma democracia mais directa. Uma democracia em que pudesse eleger pessoas de diferentes partidos polÃticos (ou sem partidos) por aquilo que elas pessoalmente defendem. Queria uma democracia livre de partidarites agudas, que muitas vezes fazem os partidos se assemelhar a clubes de futebol em que gostamos deles emotivamente e não racionalmente. Queria que as pessoas pudessem ser ouvidas por quem elegeram por forma a darem conta do que acham e avaliarem o seu desempenho com crÃticas construtivas e se a pessoa está a actuar da forma como prometeu actuar. Uma democracia sincera, honesta, verdadeira e atenta.
No entanto se é para continuar como estamos, sob a desculpa de uma democracia mais directa ser impraticável (que não é), então que se acabem com as listas e se votem apenas para mandatos, que irão ser exercidos por quem estiver a representar o partido. Menos barulho nos debates, menos dinheiro despendido para pagar a deputados, mais eficiência.



2 comentários
1 Mais razões para mudarmos o nosso sistema eleitoral // Abr 15, 2010 at 19:49
[...] ser lidas aqui e aqui. Apenas dão razão aquilo que já tenho vindo a dizer para justificar o meu voto em branco, quando me deixam [...]
2 A mediocridade parlamentar volta a atacar // Jun 20, 2010 at 18:51
[...] hoje em dia sei que qualquer aborto intelectual pode chegar a deputado, muito por culpa do podre sistema eleitoral e o sistema de listas, assim como da atitude que muitos têm relativamente às eleições e aos partidos (qual jogo de [...]
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